Paz, trabalho e vigilância

Dizem-nos que já estamos moçambicanas.
Disseram-nos isso depois de um cumprimentar tipicamente moçambicano: o aperto de mão bem característico. Este é um aperto de mão em três passos: depois de apertar a mão direita, como em Portugal e na maior parte dos países, segue-se um fincar de forças com o polegar e, por último, um novo aperto de mão com a mão direita.
O seu significado também é triplo: Paz, Trabalho e Vigilância.
A verdade é que muitas vezes já o fazemos sem pensar por ser tão característico de Moçambique.

Curiosa foi a explicação da sua origem feita por um dos pedagógicos da escola.
Nos tempos da guerra este era um cumprimento que permitia distinguir os amigos dos inimigos, quase como se de uma senha se tratasse. Assim sendo, quem usava este “cumprimento triplo” marcava a confiança e afirmava que nada tinha a ver com o inimigo.
Dizia “se te cumprimentam assim, com ele podes comer do mesmo prato, é teu irmão, é do teu sangue!”.
Curioso.

A 2 meses da partida

Hoje é dia 17 de Agosto…
Se cumpríssemos a data inicialmente prevista estaríamos neste momento a sobrevoar o continente africano na viagem de retorno (arrepiante!). Mas a nossa “pancada” pelas causas humanitárias e por Moçambique tem sido maior e poucos meses depois de aqui estarmos conseguimos perceber que isto não tem sido só uma experiência demarcada no tempo. Há experiências que nos mudam, mas neste caso é bem mais do que isso… é um início, acredito.
Acredito porque isto é uma forma de vida, porque ver crianças a dançar com a música que anda no ar com as calças a cair e um sorriso rasgado puxa a gargalhada e é contagiante, as crianças que se juntam maiores e mais pequenas e se ajudam entre si é contagiante, os alunos que te apertam a mão ou correm para ti e te abraçam quando chegas é contagiante, o olhar que agradece é contagiante, o sem número de pessoas com que te cruzas no dia-a-dia de trabalho e conversam sem pressa (normalmente nós é que somos sempre as apressadas! Resquícios do ocidente :)) é contagiante, dar espaço de reflexão aos alunos e professores é contagiante, a educação é apaixonante!

E que saudades da família e dos amigos! Mas mesmo assim na incerteza do voltar para Moçambique é derivar entre a saudade de voltar e a todos abraçar e ao mesmo tempo saber que será por algum tempo, porque a sede de voltar é muita e traz certezas. Certezas que quando o Homem quer, a obra nasce mesmo! Mesmo que para isso durante largos meses se tenha de apertar a saudade…

Agora é correr contra o tempo e aproveitar os 2 meses restantes nesta dicotomia entre a saudade do que está em Portugal e a saudade que já se sente do que aqui vamos deixar.

(Agora sim o até já está próximo)

Maputo

Depois de praticamente seis meses na Manga, uma cidade cosmopolita, multicultural, onde crianças africanas brincam juntamente com crianças de “look” ocidental (num rácio quase de 50/50), onde o trânsito é mais organizado e fluído, onde dá para questionar se realmente se está em África (a quantidade de estrangeiros é massiva, e por isso, ao contrário das paragens da Beira, as “whitis” conseguem passar despercebidas), cidade com uma arquitetura variada e lindíssima… por tudo isto realmente foi quase como sentir que de repente estávamos em Nova Iorque e não em Maputo!

E realmente também se sente que a cidade pouco tem a ver com o resto do país e que as dicotomias são imensas: há “n” lugares esquecidos – basta fazer a viagem de autocarro da Beira para Maputo para logo na chegada sentir que se chegou a um “Oásis citadino”. O mesmo país onde pessoas fazem quilómetros para buscar água, onde a cada paragem somos bombardeados pelos vendedores na sua luta pela sobrevivência, lugares com palhotas sem nenhum ponto de referência por perto, lugares onde se vivem dias (ou mais!) sem luz e sem eletricidade, lugares onde os troços aquíferos são abençoados para a lavagem do corpo e das vestes, lugares isolados onde o contacto com a oportunidade ou recursos é extremamente escasso… Mas, para mim, esta é a verdadeira África, genuína, simples, humilde e real! Feita por pessoas que batalham de sol a sol personificadas na mulher moçambicana com o filho na capulana, seguida dos outros rebentos, batalhando dia após dia pelo presente.

Aproveitando parte das férias intercalares entre o 2º e o 3º Trimestre seguimos então rumo ao sul do país… O nosso “tour” foi curto e dedicámos a maior parte do nosso tempo a repetir um discurso que já sabemos de cor e salteado:
“- Olá, somo duas voluntárias portuguesas da SOPRO…”
Falámos do nosso trabalho por embaixadas, ONG’s, organismos governamentais, organismos internacionais procurando perceber melhor como podemos obter financiamentos para continuar a desenvolver projetos na área humanitária (como fechar os olhos depois de ver que ainda há tanto mas tanto por fazer por aqui?!), apesar de todo o nosso receio correu tudo muito bem porque apesar de muitas das vezes não termos respostas palpáveis as pessoas receberam-nos sempre, na maior parte dos casos, com muita simpatia para conversar e darem-nos mais luzes. Conseguimos perceber que, sem qualquer dúvida, isto é um novelo muito maior do que possamos imaginar e só agora começámos a desenrolá-lo… Em cada ponto de passagem nos falavam de mais organismos, de mais portas para bater e é mesmo em Maputo que tudo está centralizado – é rara a rua que não tem uma ONG ou uma organização com um escritório na área da cooperação para o desenvolvimento.

Esta foi sem dúvida uma passagem obrigatória para nós!

Curiosidades sobre o poder humano de adaptação…
“Nos entretantos” tivemos contacto com algumas coisas que não víamos desde Portugal: fast food (“olha um KFC!!!”), elevadores, escadas rolantes, casas de banho limpas a todo o instante e com sistemas automáticos.
De facto, e quem fala de escadas rolantes pode também falar do mais básico que seja com que sempre viveu, adaptamo-nos a viver sem elas, cingimo-nos mais ao que é essencial…

SOS cultural

Absorvidas pelo trabalho, pela correria do dia-a-dia, é raro vermos televisão, e a Internet quando colabora deixou de ser a nossa janela para o Mundo para ser o meio privilegiado para procurarmos informação e sobretudo de comunicação com os que nos são mais queridos nos tempos que nos sobram.

Resultado: Poderia o Pingo Doce oferecer 50% em todas as compras num feriado e ser o reboliço total em Portugal que nós nem imaginaríamos! (ups!!! contaram-nos e isto aconteceu mesmo!).

Então aos vossos emails juntem as notícias, as novidades musicais, os filmes, os “must-sees”, “must-listen”, “must-read” e tudo o mais! Vocês são a ponte com a origem e com os meios de divulgação 🙂

P.S.: Links do youtube não resultam (a largura de banda não colabora…)

26 a 26!

Este post já vai com algum “delay”, visto que a escrita foi sendo adiada no corre-corre do dia-a-dia, mas para mostrar gratidão nunca chegamos atrasados. É a vocês, que estão sempre desse lado e que continuam presentes, que dedico este post!

Em Moçambique os serviços de entrega são labirínticos, a largura de banda pode não ser a melhor, a electricidade pode não colaborar, mas mesmo assim foram muitos os que quiseram chegar até mim no meu dia de aniversário: receitas com um toque especial (já sabem que um dos meus pontos fracos é a comida 🙂 ), fotos, montagens, gestos imensos recordando-me momentos e prolongando o sorriso que já estava no rosto.

Recordo que no aniversário do ano passado, fiz uma reflexão importante sobre a minha percepção das coisas e opções (já era grande a vontade de mudar de rumo!): deixar para trás das costas a correria excessiva que são todos os dias e pouco, ou nada, nos deixam para nos dedicarmos ao que e a quem gostamos, numa teia maior de consumismo, e na máquina colossal que é fazer dinheiro, algo que, infelizmente, é o único valor de muitos.
Este foi um aniversário feliz por ver que realmente dei um passo importante, porque sinto-o como muito mais do que uma experiência, e é de facto gratificante estar aqui, a fazer algumas coisas que nunca me imaginei fazer e que duvidava ter vocação para isso. Ganham-se novos gostos, aprendemos muito, conquistam-se novos desafios, tornamo-nos mais tolerantes e mais humanos, vivemos com pouco mas apesar de todas as dificuldades que encontramos, e de estarmos longe de muitos que nos são queridos, estamos realmente felizes aqui!

E isto também só é possível porque mesmo a mais de 8000km de distância continuo a sentir de perto, e comigo, a família e os amigos. Mesmo que fisicamente estejam tão longe, sinto comigo a vossa presença constante, que não se cinge apenas a datas especiais mas no decorrer de todos os dias, das mais variadas formas. É muito importante sentir que vocês continuam activos na minha vida e que me dão do vosso tempo (algo realmente valioso hoje em dia!) mesmo que em timings quase incompatíveis, já que agora eu vivo mesmo ao ritmo da natureza…

Todo este apoio é muito importante, revitaliza as forças e as energias!
É bom saber de todas as vossas histórias, apesar de toda a gente insistir primeiro em ouvir as minhas, porque há sempre novidades e muitas vezes parece mesmo que eu estou dentro de um filme mexicano-monhé-brasileiro-moçambicano (parece mesmo uma grande co-produção!).
O que vai ser no futuro não sei, mas vou fazer como os moçambicanos, continuar a aproveitar o presente 🙂 (e é tão bom contar com todos vocês!!!)

Sena

Em Moçambique falam-se vários dialectos, os mais utilizados aqui na região da Beira são o Sena e o Ndau.

Apesar da língua portuguesa ser a língua oficial de Moçambique, no dia-a-dia e especialmente em casa é comum que se fale unicamente um dos dialectos. Então, se viajarmos até ao interior da província, como aconteceu durante a nossa visita às missões, é muito comum que encontremos crianças que não compreendem nada do que dizemos.

Assim se compreende que as dificuldades escolares sejam ainda mais agravadas por este facto…

 

Entre Sena e Ndau não existe nenhuma semelhança portanto a língua portuguesa volta a ser factor unificador nestas circunstâncias.

 

Mas nada melhor do que ir perguntando aos postulantes, que são locais, como dizer uma ou outra palavra.

A nossa favorita é mesmo nhererés, que quer dizer formigas. Bem, a Mariana não pode bem dizer isso porque é constantemente atacada por muitas. Nhererés é mesmo coisa que não falta por aqui. É raro o dia em que um exército de nhererés não faz uma incursão pelo nosso quarto, e estão sempre “à cuca” de qualquer coisa que possa ser “apetitosa” pelas redondezas, seja um besouro gigante que se desiquilibrou no voo e ficou de pernas para o ar, seja qualquer coisa mais humanamente alimentícia…

 

Para terem uma noção de como o Sena é diferente de tudo o que conhecemos, o que torna mais complicado fixar o que quer que seja, ficam aqui com algumas frases típicas do “Nível 0 de Sena, edições Planeta Agostini”.

N’diça tchemeriwa Rosa.

N’dina pyaca macumawiri na zhichanu.

N’diri wa Potugual.

(Eu chamo-me Rosa. Tenho 25 anos. Sou portuguesa.)

 

Resolvi perguntar como se diz “Tenho fome” porque devemos ter sempre as frases essenciais à mão tipo canivete suiço. Nessas ocasiões direi “N’dina n’djala”.

 

Outras que dão jeito:

Takhuta! (obrigada)

Uli bom? (Tudo bem?)

Mwa tcherwa! (Bom dia!)

Maskati! (Boa tarde!)

Mwadhokerwa! (Boa noite!)

 

Assim já dá para desenrascar…

Números

Fonte: TVM1

“Selecção natural”

Um dos meus maiores dilemas no trabalho voluntário que tenho desenvolvido, e em especial na vertente de ensino aos mais pequenos, tem sido a sensação de impotência em relação ao que se anseia como ideal fazer e aquilo para que tenho realmente “braços” para alcançar…
Nos laboratórios de informática deparei-me com alunos que estão ao mesmo nível independentemente da classe em que se encontrem, quer esta seja a 7ª ou a 12ª… Alguns vão acompanhando minimamente a aula, outros vão aprendendo a pouco e pouco com a explicação individual, mas em aulas tão curtas, de 45 minutos, em turmas de 60 alunos, há sempre alguém que ficou para trás e não é possível que efectuem a prática…

Desiludo-me mesmo com este sistema, como é possível para um professor acompanhar todos os alunos, puxar por ele em turmas assim extensas? Mais flagrante foi no trabalho que começamos a desenvolver a semana passada à tarde no centro assistencial La Salle com explicações…
Os casos mais dramáticos foram de crianças na 7ª e 8ª classe que não sabem ler nem escrever e têm TPC’s de várias disciplinas que só miraculosamente poderão acompanhar… Infelizmente aqui é muito recorrente… Aqui em Moçambique, nas escolas públicas, é comum as crianças passarem consecutivamente de ano mesmo sem saberem ler ou escrever.

E agora, contrapondo a experiência que tenho de manhã percebo perfeitamente como é que algumas crianças chegam a níveis escolares mais elevados sem terem as bases: o professor lança apenas o mote, tem de partir da criança e também de todo o apoio familiar com que possam contar crescer no campo escolar (porque muitas vezes só os irmãos mais velhos podem ser uma mais valia), as casas não proporcionam um ambiente de estudo, a vida é madrasta e exige muitas vezes que nos tempos livres se aproveite para gerar algum alimento na machamba, …

Sempre fui apologista, e espero sempre ser, de que “quando o sol nasce é para todos” mas às vezes ouve-se mais alto aquela sensação de frustração, de remar para a margem mas logo de soslaio soprar um vento manhoso que nos desvia a direcção. E detesto pensar que qualquer pessoa possa aceitar um princípio de selecção natural em que apenas os mais fortes sobrevivem. Todos têm direito a uma oportunidade…
Só queria que todos eles pudessem sonhar com um futuro “maningue nice”… Mas cá estou para fazer sempre o melhor que conseguir!

[retratos] Duas jovens da Beira

Depois de grandes trovões e trombas de água o tempo acabou por abrir, é o normal por aqui, agora na época das chuvas. Por isso com um sol radiante, ainda pudemos desfrutar do calor africano na praia da cidade da Beira.

Enquanto uns jogavam futebol, eu e a Mariana ficámos à conversa com duas jovens que procuram seguir um caminho diferente para as suas vidas. Como elas dizem, por aqui é muito comum as jovens aos 16 anos já serem casadas, terem mais do que um filho e por isso ficam condenadas a uma vida sem grandes sonhos: trabalham na machamba apenas para criar o alimento de sustento para elas e para os filhos, podendo tentar vender o pouco que sobra. Muitas vezes como engravidam tão precocemente, os pais renegam que aqueles são de facto também seus filhos. As jovens têm de criar os filhos sozinhas e são postas de parte por toda a gente, muitas vezes nem na família encontram amparo.

Por outro lado, estas duas jovens, enquanto mulheres e lutadoras, esperam conseguir uma vida diferente. Ambas têm cerca de 21 anos. Uma delas prepara-se para iniciar agora o curso de Medicina, no qual soube recentemente que entrou, outra delas está agora no 3º ano de enfermagem. Esta vinda de uma família de 5 irmãos, órfãos de pai, predispõe-se a vários esforços: logo de manhã tem de apanhar uma chapa, na grande correria que é sempre apanhar uma chapa em Manga para a baixa, o retorno é só de noite.
O dinheiro é tão pouco que ela não se pode dar ao “luxo” de gastar mais do que estes 7 meticais – cerca de 20 cêntimos! – em comida: muitas vezes é optar entre ir para a universidade e ter dinheiro para comer, outras vezes tem de pedir dinheiro emprestado para ir na chapa. Nos melhores dias tem qualquer coisa para levar de casa e comer durante o dia, mas é muito comum ter de estudar com a barriga vazia.

Não desistem de sonhar e esperam poder um dia visitar Portugal, país de que ouvem muito falar.

Despedem-se de nós com um grande sorriso rasgado.

A somar a esta simpatia, sabe mesmo bem, ao fim do dia, ver o céu a encher-se dos tons vermelhos e laranja vibrantes do pôr do sol africano. Belíssimo! Dando depois lugar a um céu estrelado que só apetece abraçar…

Poema mestiço

Grande falha minha ainda não ter publicitado aqui o blog que tenho em conjunto com a Mariana para relatarmos as nossas aventuras como voluntárias da sopro.

É só espreitar aqui ao lado: http://poemamestico.blogspot.com

Até já 🙂